quinta-feira, 4 de junho de 2015

Homenagem a Manuel Guimarães no Museu do Neo-Realismo


No âmbito do Centenário do Nascimento de Manuel Guimarães (1915-1975), o Museu do Neo-Realismo homenageia o realizador, nome incontornável da história do cinema português, através da realização da exposição - “Manuel Guimarães, sonhador indómito”, que irá inaugurar no dia 17 de Outubro.

Esta exposição conta com a colaboração da Cinemateca, que irá também homenagear o realizador, com uma retrospectiva integral da sua obra “Rever Manuel Guimarães”, a decorrer entre 8 e 30 de Junho.

A sessão de abertura desta retrospectiva decorre a 8 de junho na Cinemateca, pelas 21h30, com a exibição de “Saltimbancos”, a primeira longa-metragem de Manuel Guimarães, que marcou a diferença no cinema português do começo da década de cinquenta relativamente às comédias “à portuguesa” que então se faziam, procurando aproximar-se dos modelos do neo-realismo italiano.

Na fotografia: Maria Olguim, Dórdio Guimarães, Carlos de Arbués, Almeida Santos, Manuel Guimarães, Alves Redol e Helga Liné.

terça-feira, 2 de junho de 2015

O Trigo e o Joio (1965)


Em 1965, O Trigo e o Joio, baseado no romance homónimo de Fernando Namora, foi produzido em regime de cooperativa, destacando-se neste empreendimento colectivo a participação de Igrejas Caeiro, Fernando Namora e António da Cunha Telles.

Na sua crítica, Manuel de Azevedo, embora reticente, destaca essa qualidade "humana":
«Não será talvez um “grande filme” – num sentido ambicioso de estilo cinematográfico. Mas é de certo, um filme de mérito indiscutível, obra de equipa, onde há que aplaudir a humanidade de cada um. E nessa contribuição de sacrifício individual está, porventura, a maior qualidade de “O Trigo e o Joio” – caminho válido e seguro (embora não único) do cinema português, que não pode, sem perigo de esterilidade, ignorar a realidade portuguesa».

Azevedo comenta também o aspecto estético:
«Em “O Trigo e o Joio”, Manuel Guimarães demonstrou já um amadurecimento que lhe permitiu evitar alguns dos seus maiores defeitos: a retórica cinematográfica. O filme resulta, deste modo, numa obra equilibrada, expressiva, com qualidades espectaculares dignas de aplauso. (...) Filme sem ousadias formais, sem um estilo ambicioso, impõe-se pelo acerto e pela simplicidade da generalidade das sequências, em que a história corre sem grandes oscilações» (Diário de Lisboa, 10-11-1965).

De facto, o filme aparenta uma evolução narrativa que se aproxima mais do idioma do cinema novo, nomeadamente pelo uso de elipses; todavia, esta impressão revelou-se errónea após análise dos cortes da censura que, eles sim, foram os responsáveis pelas «elipses». Este foi mais um filme impiedosamente torturado pela Censura.

Nos anos 60, Guimarães aperfeiçoa a sua matriz clássica e mantém-se fiel a uma estrutura narrativa que usa formas clássicas essenciais, tanto ao nível do argumento e da composição dramatúrgica, como nas opções cinematográficas.
 
Texto compilado a partir de «Um neo-realismo singular: o cinema de Manuel Guimarães», de Leonor Areal, in Actas das II Jornadas de Cinema Português, UBI, 2011.

Anúncio de estreia no Diário de Lisboa em 9-11-1965.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O Crime de Aldeia Velha (1964)



Em 1964, Guimarães volta a filmar uma longa-metragem. O Crime de Aldeia Velha foi produzido por António da Cunha Telles, o que indicia algum apreço da geração do Novo Cinema pela obra do veterano. Por este filme, Guimarães receberá bastos encómios:

«Baforada de dignidade artística no cinema português» intitulava-se a crítica onde F. Xavier Pacheco assinala o reaparecimento de Manuel Guimarães «da melhor forma» e afirmando que «O Crime de Aldeia Velha supera Saltimbancos, cotando-se como o melhor filme da sua carreira» (in Jornal de Notícias, Porto, 21-11-1964).

«Em boa hora Manuel Guimarães, cuja intuição plástica e senso dramático poderosamente aqui se afirmam, escolheu para uma película de ressurreição nacional a mais clamorosa peça desse rapsodo das autênticas grandezas e misérias do nosso povo que é Bernardo Santareno. (...) Perante a irresistível maré de mistério, de irracionalidade medieval, que o realizador foi capaz de canalizar até nós sem tropeçar sequer na sequência tão difícil das aparições, há que reconhecer, sim, em O Crime da Aldeia Velha, uma obra cinematográfica de ressonâncias universais» (Urbano Tavares Rodrigues in Diário de Lisboa, 1964).

«Manuel Guimarães conseguiu, na nossa opinião, um dos seus melhores filmes. A sequência final é digna de figurar numa antologia do cinema português (...). Não sendo um filme moderno – no sentido em que Belarmino o era, isto é, como linguagem – O Crime situa-se a um nível, diremos, académico, com o qual é preciso contar, em qualquer cinematografia, e que convém intensificar (Lauro António in O Tempo e o Modo, n.º 23, 1965, p.100).

Continua sempre a haver críticas de grande severidade, como a de Manuel de Azevedo, que - apesar de anteriormente ter colaborado com Manuel Guimarães em A Costureirinha da Sé - aqui considerava que ainda eram «visíveis muitas falhas de gosto, demagogias e certo estilo palavroso de dramalhão ambicioso» (elogiando por contraste o filme seguinte, O Trigo e o Joio, in Diário de Lisboa, 10-11-1965).

Texto compilado a partir de «Um neo-realismo singular: o cinema de Manuel Guimarães», de Leonor Areal, in Actas das II Jornadas de Cinema Português, UBI, 2011.

domingo, 31 de maio de 2015

A Costureirinha da Sé (1958)


Eis que, para surpresa de todos, o nosso cineasta "neo-realista" realiza uma comédia musical. A Costureirinha da Sé (1958), além de ser um filme ligeiro, seria ainda ostensiva e ironicamente – pela publicidade que inclui – o filme mais comercial da história do cinema português; o que lhe valeria a censura geral (a outra censura, a do juízo dos críticos) que não estava preparada para esse desvio ideológico e que doravante tomaria Manuel Guimarães como um proscrito da história do cinema.

Com esta concessão ao cinema comercial, Guimarães desiludia completamente:
«Manuel Guimarães voltou as costas à arte para tentar o espectáculo. (...) Filme popular, sem outros intuitos que não fossem os de distrair a plateia e conseguir um filme de espectáculo. A costureirinha da Sé marca um impasse na carreira de Manuel Guimarães. Resultado do fracasso financeiro de Vidas sem rumo e da própria falta de receptividade do cinema nacional? Momento de pausa na procura de outros caminhos? Não sabemos. Sabemos, sim, que Manuel Guimarães é um artista consciencioso e não o podemos atacar de modo nenhum por ter feito A costureirinha da Sé, pois sabemos em que meio se exerce em Portugal a profissão de cineasta».

Por isso mesmo foi atacado e perdeu os favores ou a consideração da crítica:
«Sentimos, por isso, que devemos não esquecer estar Manuel Guimarães em dívida para o cinema nacional. Tudo o que nos prometeu com Saltimbancos primeiro e depois com Nazaré – um pouco mais de esperança em Vidas sem Rumo – não encontrou seguimento na Costureirinha da Sé. Aguardamos que o próximo filme de Guimarães não constitua desilusão»

(José Reis in revista Plateia de 5 de Janeiro de 1963, na expectativa do próximo filme O Crime de Aldeia Velha).

Texto compilado a partir de «Um neo-realismo singular: o cinema de Manuel Guimarães», de Leonor Areal, in Actas das II Jornadas de Cinema Português, UBI, 2011.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Rever Manuel Guimarães na Cinemateca - Obra integral

Abertura a 8 de Junho

08-06-2015, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Manuel Guimarães – Abertura

Em colaboração com o Museu do Neo-Realismo
SALTIMBANCOS
de Manuel Guimarães
com Maria Olguim, Helga Liné, Artur Semedo, Fernando Gusmão
Portugal, 1951 - 92 min | M/12
 
Primeira longa-metragem de Manuel Guimarães (também produtor), SALTIMBANCOS marcou a diferença no cinema português do começo da década de cinquenta relativamente às comédias "à portuguesa" que então se faziam, procurando aproximar-se dos modelos do neorrealismo italiano, numa história adaptada do romance O Circo, de Leão Penedo, sobre a vida e a morte de uma companhia de saltimbancos. A apresentar em cópia resultante de um processo de preservação de 2005.
http://www.cinemateca.pt/Programacao.aspx?id=4198&date=2015-06-08