« – Tal como se encontra legislado, que perspectivas abre a nova lei de cinema?
– Há muita coisa com que não estou de acordo, como todos nós, evidentemente. Mas o que mais choca é verificar que a Lei irá proteger mais as entidades exploradoras do cinema do que aqueles que afinal o produzem. A abertura e preferência dada às co-produções parece-me também – digam o que disserem todos aqueles que no cinema apenas vêem interesses comerciais – o mais clamoroso atentado à concretização dum cinema nacional com personalidade própria. Fala-se de estruturas, infra-estruturas e mais quejandas coisas, apenas para camuflar desígnios inconfessáveis que todos bem conhecemos, conscientes como estamos de que Portugal nunca poderá ser uma oficina de cinema enlatado para consumo universal. Nem isso nos interessava nada!
Mas, não nos trará algumas coisas boas a nova Lei? Pois concerteza que sim. Se ela for cumprida nessas alíneas. Mas a melhor ajuda que ela nos poderia dar – arrisco! – seria a de construir dois cinemas, um em Lisboa e outro no Porto, para estreia dos nossos filmes, livre de taxas de exibição e distribuição, que nos levam quase a totalidade das receitas nos dois maiores centros de rentabilidade, o que quase sempre impossibilita a recuperação dos capitais investidos. Os filmes – sem discriminação – seriam ali estreados pela ordem do seu acabamento e estariam no cartaz o tempo que o público entendesse. Às salas, administradas pelo Instituto, poderia dar-se os nomes de "Paz dos Reis" no Porto e – porque não – "Leitão de Barros", em Lisboa. Quando não houvesse filmes para estrear, fazer-se-iam reposições e retrospectivas. Isso era ajudar o cinema português e dignificá-lo. (...) »
Excerto de uma entrevista a Manuel Guimarães, no Diário de Lisboa, em 1972 (data incerta).
Nota: a lei referida é a lei nº7/71 que cria o IPC, Instituto Português de Cinema, actual ICA.
http://doc-log.blogspot.pt/2007/03/h-35-anos.html
“Nasci com a Trovoada” era um projeto de
filme autobiográfico que Manuel Guimarães não chegou a realizar, mas
que agora foi concretizado por Leonor Areal. O documentário baseia-se
integralmente em materiais de arquivo: filmes, fotografias, artigos de
jornal, cartas e diários. Manuel Guimarães é a voz de narrador que nos
conduz através da sua vida e obra. Em diálogo com fragmentos dos seus
filmes, esta “autobiografia póstuma” assume-se como uma outra ficção.
Manuel Guimarães nasceu em 1915, em
Valmaior, e foi o principal cineasta neorrealista do cinema português.
Os seus filmes revelam um olhar original sobre a sociedade portuguesa,
escolhendo personagens consideradas marginais, tais como saltimbancos,
pescadores, vadios, prostitutas, estivadores, jornaleiros. "Nelas se
espelha uma arte de sonhar, aliada a uma ética da resistência e à
capacidade de sacrifício que nunca abandona a esperança", refere a
Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha. Manuel Guimarães sofreu
amargamente às mãos da censura e viveu alguns períodos de grande
dificuldade, sobrevivendo com alguns documentários e diversos trabalhos
plásticos. A morte apanhou-o a meio da montagem do seu filme-testamento
“Cântico Final”, em 1975.
Leonor Areal estudou cinema na New York
Film Academy, com uma bolsa de estudo obtida como prémio pela obra “Há
Drama na Escola” (1993). Realizou diversos documentários, entre os quais
“Geração Feliz” (2000), “Ópera Aberta” (2004), “Doutor Estranho Amor”
(2005), “Fora da Lei” (2006), menção especial no Festival DocLisboa
2006, e “Aqui Tem Gente” (2013), prémio Melhor Documentário Português no
Festival Filmes do Homem, Melgaço 2015. É professora-adjunta convidada
na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha (Instituto
Politécnico de Leiria). Atualmente desenvolve um projeto de investigação
de pósdoutoramento sobre censura no cinema português.





