O RITMO NA VIDA | EXPRESSOS “LISBOA-MADRID” | LOTAÇÃO ESGOTADA
duração total da sessão: 119 min | M/12
O RITMO NA VIDA
Portugal, 1968 – 11 min
EXPRESSOS “LISBOA-MADRID”
Portugal, 1969 – 14 min de Manuel Guimarães
LOTAÇÃO ESGOTADA de Manuel Guimarães com Artur Semedo, Miguel Franco, Luísa Neto, Edith Sarah, Ana Elsa
Portugal, 1972 – 94 min
Da última fase da sua obra, concluída com CÂNTICO FINAL alguns anos
depois, este filme de Manuel Guimarães (realizador e produtor) tem
argumento e diálogos de Mário Braga a partir de uma ideia de Artur
Semedo, fotografia de Abel Escoto e música de António Victorino
d’Almeida. Trata-se de um filme ambientado numa localidade fictícia, a
Casconha, cujo cemitério local está cheio (“lotação esgotada”) sendo a
construção do novo cemitério a grande obra do mandato do presidente da
câmara, cujo corolário, a inauguração, é retardada pela vitalidade dos
habitantes do município. Metáfora crítica da sociedade portuguesa da
época, LOTAÇÃO ESGOTADA foi um filme particular e injustamente mal
recebido na altura.
Antecedem-no as curtas-metragens promocionais O
RITMO NA VIDA (patrocinada pelo então BESCL-Banco Espírito Santo e
Comercial de Lisboa) e EXPRESSOS “LISBOA-MADRID” (patrocinado pela
Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses).
FERNANDO NAMORA de Manuel Guimarães
Portugal, 1969 – 12 min
O TRIGO E O JOIO de Manuel Guimarães com Eunice Muñoz, Igrejas Caeiro, Mário Pereira, Barreto Poeira
Portugal, 1965 – 90 min
Produzido pelos Artistas e Técnicos Associados, a Tobis Portuguesa,
António da Cunha Telles e Guimarães, O TRIGO E O JOIO é uma adaptação do
romance homónimo de Fernando Namora, assinada pelo próprio escritor. Um
drama sobre uma família de agricultores em que o chefe desbarata na
feira o dinheiro destinado à compra de uma burra, indispensável à labuta
no campo. A realização é despojada e moderna. A abrir a sessão,
produzido por Ricardo Malheiro, FERNANDO NAMORA (primeira exibição na
Cinemateca) retrata a vida e obra do escritor, que surge num testemunho
filmado.
MANUEL GUIMARÃES | CURTAS-METRAGENS ARTISTAS PLÁSTICOS
duração total da sessão: 104 min | M/12
sessão apresentada por David Santos
O DESTERRADO – VIDA E OBRA DE SOARES DOS REIS com José Amaro, Dórdio Guimarães, Silva Araújo
Portugal, 1949 – 28 min
ANTONIO DUARTE
Portugal, 1969 – 20 min
RESENDE
Portugal, 1969 – 24 min
CARTA A MESTRE DÓRDIO GOMES
Portugal, 1971 – 16 min
AREIA MAR – MAR AREIA
Portugal, 1972 – 16 min de Manuel Guimarães
O alinhamento da sessão reúne cinco títulos documentais de
curta-metragem dedicados a artistas plásticos. Obra inaugural de
Guimarães na realização, com argumento de Fernando Fragoso baseado em
obras de Diogo Macedo, O DESTERRADO (prémio Paz dos Reis) é uma
dramatização biográfica da vida e obra de Soares dos Reis. ANTONIO
DUARTE e RESENDE são dois títulos da série “Artes e Letras”, produzidos
por Ricardo Malheiro. Em ambos se entrevistam os artistas, Antonio
Duarte e Júlio Resende, tendo o segundo comentário e locução de Virgílio
Ferreira. Os dois últimos são produzido pelo próprio Guimarães: com
comentário de Dórdio Guimarães e locução de Gomes Ferreira, CARTA A
MESTRE DÓRDIO GOMES centra-se na vida e obra do artista referenciado no
título; AREIA MAR – MAR AREIA constrói-se à volta da vida e obra do
escultor Joaquim Martins Correia, e também do seu testemunho, por
ocasião de uma exposição organizada na Sociedade Nacional de Belas
Artes, em Lisboa. AREIA MAR – MAR AREIA e RESENDE são primeiras
exibições na Cinemateca. David Santos, diretor do Museu Nacional de Arte
Contemporânea, apresenta a sessão.
24-06-2015, 18H30 | SALA LUÍS DE PINA - CINEMATECA
REVER MANUEL GUIMARÃES
EM COLABORAÇÃO COM O MUSEU DO NEO-REALISMO
O CRIME DE ALDEIA VELHA
de Manuel Guimarães
com Barbara Laage, Rogério Paulo, Mário Pereira, Maria Olguim, Rui Gomes, Glicínia Quartin
Portugal, 1964 - 115 min | M/12
Adaptação de uma peça de Bernardo Santareno, por sua vez inspirada num facto verídico, ocorrido no norte do país em 1933*. A história de uma mulher que se julga possessa e que é queimada numa fogueira pelo povo da aldeia como forma de exorcismo, depois de dois homens se terem suicidado por amor dela. Um requisitório contra a superstição num dos filmes mais interessantes de Manuel Guimarães. Seis anos depois de A COSTUREIRINHA DA SÉ, o regresso de Guimarães às longas-metragens de ficção, faz-se com António da Cunha Telles como produtor (produção para a Tobis Portuguesa), no mesmo ano de BELARMINO de Fernando Lopes, que com OS VERDES ANOS de Paulo Rocha (produções Cunha Telles) abriram o caminho do “Cinema Novo Português”. A apresentar numa cópia resultante do processo de preservação de 1997.
ARTES GRÁFICAS | O ENSINO DAS BELAS ARTES | O PORTO, ESCOLA DE ARTISTAS
duração total da sessão: 73 min | M/12
sessão apresentada por David Santos
ARTES GRÁFICAS
Portugal, 1967 – 26 min
O ENSINO DAS BELAS ARTES
Portugal, 1967 – 21 min
O PORTO, ESCOLA DE ARTISTAS
Portugal, 1967 – 26 min de Manuel Guimarães
O alinhamento da sessão reúne três curtas-metragens documentais
realizadas por Guimarães para a série “Portugal de Agora” produzida pelo
SNI-Secretariado Nacional de Informação. Dedicados a “temas
artísticos”, os três títulos não deixam de estar marcados pelo seu crivo
de filmes de propaganda. Em ARTES GRÁFICAS, faz-se um panorama da
atividade na época, em Lisboa e no Porto, com ênfase no cartaz, nas
revistas e livros bem como no ensino e nas instituições a ela ligadas. O
ENSINO DAS BELAS ARTES concentra-se na Escola de Belas Artes do Porto,
também referenciada em O PORTO, ESCOLA DE ARTISTAS, igualmente filmado
no Museu Soares dos Reis e em que, para além das obras aí expostas de
pintores e escultores portuenses, se filmam, nos seus respetivos
estúdios, Dórdio Gomes, António Cruz, Guilherme Camarinha, Augusto
Gomes, Amândio Silva, Martins da Costa e Júlio Resende. Os primeiro e
terceiro títulos são primeiras exibições na Cinemateca. David Santos,
diretor do Museu Nacional de Arte Contemporânea, apresenta a sessão.
AS CORRIDAS INTERNACIONAIS DO PORTO | O PORTO É CAMPEÃO! | A COSTUREIRINHA DA SÉ
duração total da sessão: 117 min | M/12
AS CORRIDAS INTERNACIONAIS DO PORTO
Portugal, 1956 – 12 min
O PORTO É CAMPEÃO!
Portugal, 1956 – 5 min de Manuel Guimarães
A COSTUREIRINHA DA SÉ de Manuel Guimarães com Maria de Fátima Bravo, Alina Vaz, Jacinto Ramos, Baptista Fernandes, Carlos José Teixeira e Costinha
Portugal, 1958 – 100 min
Adaptação de uma opereta, A COSTUREIRINHA DA SÉ foi um projeto fracassado de filme de sucesso, crónica bairrista do Porto com uma cançonetista da moda no papel principal, interpretada por Maria de Fátima Bravo. Entre a faina da cidade, a observação social e a ingenuidade amorosa, a quarta longa-metragem de Manuel Guimarães (que também assina produção, planificação e montagem), distingue-se na bela fotografia de Perdigão Queiroga e nas suas belas cores (em scope, Eastmancolor). A apresentar numa cópia resultante do processo de preservação de 1997. A sessão abre com duas curtas-metragens “portuenses e desportivas” de 1956, produzidas para a Lisboa Filme: AS CORRIDAS INTERNACIONAIS DO PORTO, “uma reportagem de Manuel Guimarães” sobre uma prova automobilística de Fórmula 1 realizada na cidade (a apresentar em cópia nova, numa primeira exibição na Cinemateca); O PORTO É CAMPEÃO!, que dá a ver imagens decisivas de um jogo de futebol em que o FCP se sagrou campeão nacional.
com Milú, Eugénio Salvador, Artur Semedo, Madalena Sotto, Jacinto Ramos
Portugal, 1956 – 73 min
Manuel Guimarães tentou com SALTIMBANCOS (1951) uma tangente ao movimento literário neorrealista português (o filme inspirava-se num romance de Leão Penedo e teve como diretor de produção outro nome ligado ao movimento, Rogério de Freitas) e à nova escola cinematográfica italiana do pós guerra. O fraco acolhimento ao filme não impediu Manuel Guimarães de voltar a explorar aquele caminho em VIDAS SEM RUMO, inspirado num conto seu (Pardal & C.ª) mas com diálogos, argumento, montagem e planificação de Alves Redol, outro expoente do neorrealismo literário português. Segundo Luís de Pina, o resultado foi “uma crónica jornalística de um bairro pobre que a Censura tornou irreconhecível, filme de grandes contrastes, irregular, mas muito pessoal.” A apresentar numa cópia resultante do processo de preservação de 1996. A abrir a sessão, em “rima portuária” com VIDAS SEM RUMO, TRÁFEGO E ESTIVA (produzido por Ricardo Malheiro): título de importância histórica como o primeiro filme português originalmente filmado em 70mm. Iminentemente publicitário, mostrando as atividades de estiva do porto de Lisboa do ponto de vista da sua eficácia e do progresso, é um filme de belas imagens (em scope) e música de Carlos Paredes.
BARCELOS
Portugal, 1961 – 11 min
PORTO – CAPITAL DO TRABALHO
Portugal, 1961 – 14 min
VINHOS BI-SECULARES
Portugal, 1961 – 11 min
TAPETES DE VIANA DO CASTELO
Portugal, 1967 – 14 min de Manuel Guimarães
O alinhamento da sessão reúne quatro títulos documentais de curta-metragem realizados por Manuel Guimarães nos anos sessenta e centrados na região do Douro e Minho. Patrocinado pela Câmara Municipal e Comissão de Turismo de Barcelos, o primeiro regista aspectos da região e a anual Festa das Cruzes. PORTO – CAPITAL DO TRABALHO refere a realidade económica e laboral da cidade. VINHOS BI-SECULARES centra-se na produção e cultivo do vinho do Porto e foi, como os anteriores, produzido pelo realizador. TAPETES DE VIANA DO CASTELO foi realizado para o produtor Ricardo Malheiro, e retrata atividades da confeção e indústria da tapeçaria no distrito de Viana do Castelo. À exceção deste último, são primeiras exibições na Cinemateca.
Plasticamente,
NAZARÉ aproxima-se dos clássicos de Leitão de Barros MARIA DO MAR e
ALA-ARRIBA!, e apresenta afinidades com o neorrealismo italiano no modo
como explora os conflitos entre pescadores bem como a sua umbilical
ligação ao lugar a que pertencem. Longe do folclore pitoresco associado
pelo Estado Novo à Nazaré, é sobretudo na sua comunidade e na sua
dimensão trágica que Guimarães se centra. Alves Redol escreveu o
argumento e os diálogos, num filme muito massacrado pela censura. A
apresentar numa cópia resultante do processo de preservação de 1996. A
sessão inclui imagens de uma apresentação do filme por Manuel Guimarães
na RTP.
Na Cinemateca, a acompanhar o ciclo de cinema, uma exposição sobre a obra de Manuel Guimarães, com curadoria de Leonor Areal e pesquisa de Carlos Braga, Miguel Cardoso e Rafael Prata.
Uma antevisão em miniatura do que será a exposição no Museu do Neo-Realismo a inaugurar em 17 de Outubro.
com Maria Olguim, Helga Liné, Artur Semedo, Fernando Gusmão
Portugal, 1951 - 92 min | M/12
Primeira
longa-metragem de Manuel Guimarães (também produtor), SALTIMBANCOS
marcou a diferença no cinema português do começo da década de cinquenta
relativamente às comédias "à portuguesa" que então se faziam, procurando
aproximar-se dos modelos do neorrealismo italiano, numa história
adaptada do romance O Circo, de Leão Penedo, sobre a vida e a morte de
uma companhia de saltimbancos. A apresentar em cópia resultante de um
processo de preservação de 2005. http://www.cinemateca.pt/programacao.aspx?ciclo=490
Cinemateca e Museu do Neo-realismo homenageiam cineasta Manuel Guimarães
A Cinemateca Portuguesa vai
homenagear Manuel Guimarães com uma retrospetiva integral da sua obra, a
partir de hoje, iniciativa realizada em colaboração com o Museu do
Neo-Realismo, no centenário do nascimento do cineasta, anunciou o Museu
do Cinema.
A retrospetiva na Cinemateca antecede uma exposição no Museu do
Neo-realismo, em Vila Franca de Xira, intitulada "Manuel Guimarães,
sonhador indómito", que vai ser inaugurada no dia 18 de outubro, segundo
o museu.
A exposição, com curadoria de Leonor Areal, vai estar aberta ao público até 28 de fevereiro de 2016.
O ciclo "Rever Manuel Guimarães", na Cinemateca, permite rever o
percurso do cineasta que se destacou pela aplicação dos princípios
ideológicos do neorrealismo à sétima arte, da qual fazem parte os filmes
"Nazaré" (1958) e "O Crime de Aldeia Velha" (1968).
A sessão de abertura está marcada para as 21:30, com a exibição de
"Saltimbancos", a primeira longa-metragem de Manuel Guimarães, filme
"que marcou a diferença no cinema português do começo da década de 1950,
relativamente às comédias `à portuguesa` que então se faziam,
procurando aproximar-se dos modelos do neorrealismo italiano", realça o
comunicado.
A Cinemateca refere que Manuel Guimarães é "um dos mais incompreendidos
e mais injustamente desconhecidos realizadores portugueses, cuja obra é
urgente rever e redescobrir".
"Rever Manuel Guimarães" vai decorrer até ao próximo dia 30, na sala Luís de Pina, da Cinemateca Portuguesa, em Lisboa.
No centenário do nascimento de Manuel
Guimarães (1915-1975), a Cinemateca homenageia o realizador com uma
retrospetiva integral da sua obra, numa iniciativa realizada em
colaboração com a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira / Museu do
Neo-Realismo, no contexto da exposição que ali será inaugurada a 17 de
Outubro próximo - Manuel Guimarães, Sonhador Indómito, com
curadoria de Leonor Areal - e da edição do catálogo dessa exposição que
contará com o apoio da Cinemateca. Um dos mais incompreendidos e mais
injustamente desconhecidos realizadores portugueses, a cuja obra a
Cinemateca dedicou uma primeira retrospetiva em 1997 (“Manuel Guimarães:
A Travessia do Deserto”), Manuel Guimarães é um nome incontornável na
história do cinema português e o autor de uma obra importante que é
urgente rever e redescobrir.
Manuel Guimarães acolheu nos seus filmes influências e referências das
mais variadas proveniências, da literatura à pintura e, no cinema, do
expressionismo alemão ao realismo poético francês, do cinema soviético
ao cinema clássico americano. Os seus filmes tocam, ainda, tanto a
mensagem social como o musical escapista, o neorrealismo e o fantástico,
o melodrama e a comédia, a penúria de meios técnicos de uma rodagem
artesanal ou a grande produção comercial experimentando novas
tecnologias como o CinemaScope, a cor e o 70mm.
Nascido em 1915, em Vale Maior (Albergaria-a-Velha), estudou na Escola
de Belas-Artes do Porto, mantendo ao longo de toda a vida uma ligação
importante à pintura, às artes gráficas, à ilustração e ao
caricaturismo. Foi assistente de realização de Manoel de Oliveira
durante a rodagem de ANIKI-BOBÓ (1942) e, depois disso, trabalhou com
António Lopes Ribeiro, João Moreira, Jorge Brum do Canto, Armando
Miranda e Arthur Duarte. A sua primeira curta-metragem, O DESTERRADO,
sobre o escultor Soares dos Reis, foi considerada o melhor documentário
português de 1949 e chamou a atenção para o novo realizador. As
primeiras longas-metragens – SALTIMBANCOS, NAZARÉ e VIDAS SEM RUMO
(1951/52/56) – foram produzidas em condições financeiras e técnicas
precárias, tendo sido extensamente mutiladas pela censura e dividido uma
crítica polarizada que apenas conseguiu ver nelas um “equívoco
neorrealista” ou outro “falso arranque” da desejada renovação do cinema
português. Estes filmes foram, no entanto, as obras mais originais e
mais arrojadas da década de cinquenta, obrigando a uma revisão urgente
das interpretações que remetem esta época apenas a um período negro do
cinema português ou a uma mera antecâmara da renovação do Cinema Novo na
década seguinte.
Endividado e muito desmoralizado com as reações negativas aos seus
primeiros filmes e esgotado após o longo período de refilmagem de VIDAS
SEM RUMO a que a censura o obrigara, Manuel Guimarães abandona
temporariamente o cinema, vendo-se forçado a aceitar, em 1958, a
realização de A COSTUREIRINHA DA SÉ, veículo de grande espetáculo para a
estrela do nacional-cançonetismo Maria de Fátima Bravo. O filme foi
arrasado pela crítica, insensível ao retrato de um país em mudança que
ali também se representava, e Guimarães ganha a reputação de cineasta
maldito.
Anos depois, a sua carreira teria um momento de relançamento graças ao
produtor António da Cunha Telles, para quem realiza O CRIME DE ALDEIA
VELHA (1964), adaptação da peça homónima de Bernardo Santareno. Mas O
TRIGO E O JOIO (1965), adaptação de Fernando Namora, é novamente
mutilado pela censura e atacado pela crítica. Empurrado para a
realização de curtas-metragens de encomenda, Manuel Guimarães
dedicar-se-ia ao género com empenho, assinando para o SNI, a RTP e o
produtor Ricardo Malheiro mais de uma dezena de documentários, entre os
quais se destacam vários sobre o mundo da arte, como ANTÓNIO DUARTE,
FERNANDO NAMORA, RESENDE (1969) ou CARTA A MESTRE DÓRDIO GOMES (1971);
sobre o trabalho, como TAPETES DE VIANA DO CASTELO (1967), ou ainda
TRÁFEGO E ESTIVA (1968), o primeiro filme em 70mm realizado em Portugal.
Em 1972, a comédia LOTAÇÃO ESGOTADA voltaria a penalizá-lo aos olhos do
público e, sobretudo, da crítica que o acusou de insistir num género
desusado numa altura em que se estreavam obras emblemáticas do cinema
moderno português como UMA ABELHA NA CHUVA e O PASSADO E O PRESENTE
(1971).
CÂNTICO FINAL (1975), último filme de Guimarães, adapta o romance
homónimo de Vergílio Ferreira. Terminado pelo seu filho, Dórdio
Guimarães, faz ressoar na vida do seu protagonista os últimos anos de
Manuel Guimarães. Tocante reflexão biográfica, CÂNTICO FINAL é a súmula
perfeita de uma vida norteada por um sentido ético inflexível e de uma
obra desalinhada dos padrões críticos da sua época, mutilada pela
censura e menosprezada pela história do cinema, mas sempre caracterizada
por uma grande dignidade artística.
A sessão de abertura, com SALTIMBANCOS, tem lugar na sala M. Félix Ribeiro, às 21h30 de 8 de junho (ver entrada respetiva).
Um português que aplicou os princípios ideológicos do neo-realismo
ao cinema; um italiano que deles se quis autonomizar e assim ajudou a
inventar a chamada "comédia à italiana"
Cartaz de Os SaltimbancosDR
A Cinemateca Portuguesa vai homenagear Manuel Guimarães, a partir
desta segunda-feira, com uma retrospectiva integral da sua obra, em
colaboração com o Museu do Neo-Realismo, no centenário do nascimento do
cineasta.
O ciclo Rever Manuel Guimarães vai
permitir a reconstrução do percurso do cineasta, que se destacou pela
aplicação dos princípios ideológicos do neo-realismo à Sétima Arte,
nomeadamente a denúncia das desigualdades sociais, patente em filmes
como Nazaré (1952), com argumento de Alves Redol, Vidas Sem Rumo (1953-56), ou O Crime de Aldeia Velha (1964).
A sessão de abertura está marcada para segunda-feira, dia 8, às 21h30, com a exibição de Saltimbancos (1951),
primeira longa-metragem de Manuel Guimarães, filme "que marcou a
diferença no cinema português do começo da década de 1950, relativamente
às comédias 'à portuguesa que então se faziam, procurando aproximar-se
dos modelos do neo-realismo italiano", realça o comunicado da Cinemateca
Portuguesa - Museu do Cinema a apresentar o ciclo.
Manuel
Guimarães é "um dos mais incompreendidos e mais injustamente
desconhecidos realizadores portugueses, cuja obra é urgente rever e
redescobrir", lembra ainda a Cinemateca sobre o realizador que surge nos
anos de 1950, antes da emergência do Cinema Novo da década de 1960.
Nascido
na região de Albergaria-a-Velha, em 1915, Manuel Guimarães iniciou a
carreira no cinema, integrado nas equipas de Manoel de Oliveira (de quem
foi assistente de realização, em Aniki-Bóbó, em 1942), Brum do Canto ou Arthur Duarte, depois do curso de Pintura da Escola de Belas Artes do Porto.
Realizou o primeiro filme em 1949, a curta-metragem O Desterrado, sobre o escultor Soares dos Reis. Seguir-se-ia Saltimbancos, de 1951, que adaptava o romance de Leão Penedo. Acentuou a crítica social em Nazaré, sobre o dia-a-dia dos pescadores, e em Vidas Sem Rumo, centrado nas comunidades mais pobres de Lisboa, obras que o transformaram em alvo da censura e da ditadura do Estado Novo.
Para sobreviver, passou a dirigir filmes comerciais e reportagens de acontecimentos desportivos. Foi nesse contexto que surgiu A Costureirinha da Sé (1958),
exemplar tardio da comédia "à portuguesa", já em registo de
filme-opereta, filmado na zona histórica do Porto e marcado por um
apurado trabalho da cor.
Na década de 1960, dirigiu O Crime da Aldeia Velha (1964), sobre a peça homónima de Bernardo Santareno, e "O Trigo e o Joio (1965), a partir do romance de Fernando Namora.
O
documentário, porém, dominava a sua actividade regular: produções de
arte para a RTP e filmes sobre temas como os tapetes de Viana do
Castelo, o ensino das Belas Artes, o escritor Fernando Namora, o
escultor António Duarte, os pintores Dórdio Gomes e Júlio Resende, ou Areia Mar – Mar Areia, já da década de 1970. Tráfego e Estiva
(1968), curta-metragem sobre Lisboa ribeirinha, com música de Carlos
Paredes e narração de Luís Filipe Costa, foi o primeiro filme português
rodado em 70 milímetros.
Em 1972, Manuel Guimarães ensaiaria a comédia em Lotação esgotada". Mas foi com Cântico Final (1975),
a partir do romance de Vergílio Ferreira, que fez ressoar, no
protagonista, os seus últimos anos de vida, como destaca a Cinemateca,
na apresentação da obra. "Tocante reflexão biográfica", escreve a
instituição, Cântico Final é a súmula perfeita de uma vida
norteada por um sentido ético inflexível e uma obra desalinhada dos
padrões críticos da sua época, mutilada pela censura e menosprezada pela
história do cinema, mas sempre caracterizada por uma grande dignidade
artística".
Manuel Guimarães morreu em Janeiro de 1975, aos 59 anos. A montagem de Cântico Final foi concluída por seu filho, Dórdio Guimarães.
O ciclo Rever Manuel Guimarães vai decorrer até 30 de Junho, na Sala Luís de Pina. A retrospectiva antecede a exposição Manuel Guimarães, sonhador indómito,
com curadoria de Leonor Areal, que será inaugurada a 18 de Outubro no
Museu do Neo-realismo, em Vila Franca de Xira, onde ficará até 28 de
Fevereiro de 2016.
Em 1974, João Alves da Costa fazia um balanço da obra de Manuel Guimarães e do seu «esquecimento» pela História:
«Na
história do cinema português, o nome Manuel Guimarães figura como um
caso exemplar. “Saltimbancos” e “Nazaré” constituem dois significativos
marcos da estética do neo-realismo. Guimarães, companheiro de geração
de Redol, de Manuel da Fonseca, de Namora, de Carlos de Oliveira e de
Vergílio Ferreira, foi a grande aposta de um cinema comprometido com as
esperanças do homem nacional. Todavia, a História não é historicista; e,
depois do apogeu, decorreram anos de (quase) esquecimento. Entretanto, a
mais jovem crítica cinematográfica reclama, agora, Manuel Guimarães
como figura central do movimento neo-realista. E o cineasta, sempre a
caminho, fiel aos princípios que decorrem de uma convicção, vai filmar
“Cântico Final”, precisamente baseado num romance de um antigo
companheiro de jornada: Vergílio Ferreira» (Diário Popular, 1974).
O último filme, Cântico Final (1975), seria uma espécie de testamento estetico-político, mas Manuel Guimarães não pôde acabá-lo e a montagem foi concluída por seu filho, Dórdio Guimarães, que não soube talvez corresponder à ideia do autor; é um filme imperfeito e por isso difícil de avaliar.
Depois da morte, Guimarães é recordado por Baptista Rosa como «uma figura estranha, triste e quase envergonhada»: «Vimo-lo, com aquele sorriso triste, enfrentar as maiores dificuldades. Não ter dinheiro para comer, mas não perder o entusiasmo por um projecto no qual confiava em absoluto. E lá ia fazendo os seus filmes» (Plateia, 1975). É esta imagem do realizador esforçado mas frustrado que irá tingir - injustamente - a sua memória.
A sétima longa-metragem de Manuel Guimarães, Lotação Esgotada (1972), é uma sátira ao poder patriarcal e às hierarquias do poder local. Mas, no meio da torrente de filmes dos inícios de 70 e já depois de afirmada a nova vaga portuguesa, este filme parece passar um tanto desapercebido. Dirá Lauro António:
«Lotação Esgotada é uma comédia com coisas bastante interesantes e outras profundamente falhadas. O melhor que poderemos dela dizer é que se vê sem que nos envergonhemos (nós, público) e sem que o realizador saia envergonhado. Nada traz de novo, mas tenta assimilar um certo tipo de liberdades narrativas que não deixam de ser uma agradável surpresa, vindas, como vêm, de um realizador que trabalha o cinema há mais de trinta anos» ( Diário de Lisboa, 16-5-1972).
Afonso Cautela é menos benévolo e pretendia uma sátira mais actual, apontada aos “pequeno-burgueses”:
«Chegamos a lamentar que, com um pouco mais de ambição, de tempo e de métier e de liberdade na realização, Manuel Guimarães não tivesse conseguido o filme interessante que esteve a pique de conseguir, e um verdadeiro retrato da vida portuguesa ao nível dos hábitos pequeno-burgueses (...)» (A Capital, 1972).
Continua a ser flagrante e inexplicável a incompreensão que o crítico mostra em relação à acção da censura sobre a obra cinematográfica, acção repressiva que ele, como jornalista, não podia deixar de conhecer por experiência própria...
Mas é Luís de Pina que, à época, reconhece neste filme o seu valor crítico, dizendo-o «uma peça do mais puro humor negro», uma «sátira de costumes» e uma «sátira social»:
«Torna-se
evidente, do ponto de vista social, a crítica ao despotismo, na figura
do presidente da câmara que se acha vítima da sua própria ambição, da
sua intolerância, do seu desejo de facha-
da» (Observador, 1972).
No âmbito do Centenário do Nascimento de Manuel Guimarães (1915-1975), o Museu do Neo-Realismo homenageia o realizador, nome incontornável da história do cinema português, através da realização da exposição - “Manuel Guimarães, sonhador indómito”, que irá inaugurar no dia 17 de Outubro.
Esta exposição conta com a colaboração da Cinemateca, que irá também homenagear o realizador, com uma retrospectiva integral da sua obra “Rever Manuel Guimarães”, a decorrer entre 8 e 30 de Junho.
A sessão de abertura desta retrospectiva decorre a 8 de junho na Cinemateca, pelas 21h30, com a exibição de “Saltimbancos”, a primeira longa-metragem de Manuel Guimarães, que marcou a diferença no cinema português do começo da década de cinquenta relativamente às comédias “à portuguesa” que então se faziam, procurando aproximar-se dos modelos do neo-realismo italiano.
Na fotografia: Maria Olguim, Dórdio Guimarães, Carlos de Arbués, Almeida Santos, Manuel Guimarães, Alves Redol e Helga Liné.
Em 1965, O Trigo e o Joio, baseado no romance homónimo de Fernando Namora, foi produzido em regime de cooperativa, destacando-se neste empreendimento colectivo a participação de Igrejas Caeiro, Fernando Namora e António da Cunha Telles.
Na sua crítica, Manuel de
Azevedo, embora reticente, destaca essa qualidade "humana":
«Não será talvez um “grande filme” – num sentido ambicioso de estilo cinematográfico. Mas é de certo, um filme de mérito
indiscutível, obra de equipa, onde há que aplaudir a humanidade de cada
um. E nessa contribuição de sacrifício individual está, porventura, a
maior qualidade de “O Trigo e o Joio” – caminho válido e seguro
(embora não único) do cinema português, que não pode, sem perigo de
esterilidade, ignorar a realidade portuguesa».
Azevedo comenta também o aspecto estético:
«Em “O
Trigo e o Joio”, Manuel Guimarães demonstrou já um amadurecimento que
lhe permitiu evitar alguns dos seus maiores defeitos: a retórica
cinematográfica. O filme resulta, deste modo, numa obra equilibrada,
expressiva, com qualidades espectaculares dignas de aplauso. (...) Filme
sem ousadias formais, sem um estilo ambicioso, impõe-se pelo acerto e
pela simplicidade da generalidade das sequências, em que a história corre sem grandes oscilações» (Diário de Lisboa, 10-11-1965).
De facto, o filme aparenta uma evolução narrativa que se aproxima mais do idioma do cinema novo, nomeadamente pelo uso de elipses; todavia, esta impressão revelou-se errónea após análise dos cortes da censura que, eles sim, foram os responsáveis pelas «elipses». Este foi mais um filme impiedosamente torturado pela Censura.
Nos anos 60, Guimarães aperfeiçoa a sua matriz clássica e mantém-se fiel a uma estrutura narrativa que usa formas clássicas essenciais, tanto ao nível do argumento e da composição dramatúrgica, como nas opções cinematográficas.
Em 1964, Guimarães volta a filmar uma longa-metragem. O Crime de Aldeia Velha foi produzido por António da Cunha Telles, o que indicia algum apreço da geração do Novo Cinema pela obra do veterano. Por este filme, Guimarães receberá bastos encómios:
«Baforada de dignidade artística no cinema português» intitulava-se a crítica onde F. Xavier Pacheco assinala o reaparecimento de Manuel Guimarães «da melhor forma» e afirmando que «O Crime de Aldeia Velha supera Saltimbancos, cotando-se como o melhor filme da sua carreira» (in Jornal de Notícias, Porto, 21-11-1964).
«Em boa hora Manuel Guimarães, cuja intuição plástica e senso dramático poderosamente aqui se afirmam, escolheu para uma película de ressurreição nacional a mais clamorosa peça desse rapsodo das autênticas grandezas e misérias do nosso povo que é Bernardo Santareno. (...) Perante a irresistível maré de mistério, de irracionalidade medieval, que o realizador foi capaz de canalizar até nós sem tropeçar sequer na sequência tão difícil das aparições, há que reconhecer, sim, em O Crime da Aldeia Velha, uma obra cinematográfica de ressonâncias universais» (Urbano Tavares Rodrigues in Diário de Lisboa, 1964).
«Manuel Guimarães conseguiu, na nossa opinião, um dos seus melhores filmes. A sequência final é digna de figurar numa antologia do cinema português (...). Não sendo um filme moderno – no sentido em que Belarmino o era, isto é, como linguagem – O Crime situa-se a um nível, diremos, académico, com o qual é preciso contar, em qualquer cinematografia, e que convém intensificar (Lauro António in O Tempo e o Modo, n.º 23, 1965, p.100).
Continua sempre a haver críticas de grande severidade, como a de Manuel de Azevedo, que - apesar de anteriormente ter colaborado com Manuel Guimarães em A Costureirinha da Sé - aqui considerava que ainda eram «visíveis muitas
falhas de gosto, demagogias e certo estilo palavroso de dramalhão
ambicioso» (elogiando por contraste o filme seguinte, O Trigo e o Joio, in Diário de Lisboa, 10-11-1965).