domingo, 24 de maio de 2015

Um neo-realismo singular: o cinema de Manuel Guimarães




É peculiar a situação do movimento neo-realista que no cinema português tem um único representante, Manuel Guimarães, com obra razoavelmente numerosa, pois, entre as décadas de 50 e 70, realizou 8 longas-metragens e 20 documentários. No campo da ficção cinematográfica, ele  é todo o cinema neo-realista português – movimento composto de um só cultor - apesar de alguma historiografia lhe recusar esse lugar, ora negando a existência de neo-realismo em Portugal, ora englobando nessa categoria filmes de outros realizadores que descaracterizam esse neo-realismo que se diz que não houve...

Aceitemos que o cinema português estava desfasado, como toda a sociedade portuguesa estava, dos restantes países da Europa. O neo-realismo português no cinema foi escasso, mas é tudo quanto nos resta de interessante como expressão cinematográfica contracorrente na década de 50. Um grito na escuridão, é assim que devemos olhar para o cinema de Manuel Guimarães, ainda que uns possam achá-lo imperfeito, esquecendo quanto foi mutilado pela Censura e por outras restrições a que o imperativo comercial o sujeitava.

Em Portugal, o movimento neo-realista está sobretudo ligado a uma geração que se define por referentes literários e ideológicos comuns, tanto como por afinidades e amizades. A literatura neo-realista tem uma expressão fortíssima em Portugal das décadas de 40, 50 e 60 e influenciou várias gerações subsequentes.

Embora muitas obras do neo-realismo literário tenham sido transpostas para o cinema - em adaptações várias que continuarão pelas décadas seguintes, marcando uma visão política da sociedade portuguesa e diversas reconstituições históricas - não podemos apelidá-las de cinema neo-realista quando, em certos casos (Jorge Brum do Canto ou Perdigão Queiroga, por exemplo), o tratamento narrativo acaba por revelar um ponto de vista ideologicamente conformista. O que definirá o cinema neo-realista português será sobretudo uma atitude de resistência ideológica que não pode confundir-se meramente com a adaptação a argumento de tal ou tal romance.

A obra de Guimarães afirma-se perante dificuldades concretas num contexto onde está fora de possibilidade a expressão autêntica de uma visão antagonista da sociedade. Como a combatividade não podia ser mostrada, logo, não podia existir, o que temos é um neo-realismo de resistência.

(excerto de «Um neo-realismo singular: o cinema de Manuel Guimarães» por Leonor Areal, in Frederico Lopes (org.), Cinema em Português, UBI, 2011: http://www.livroslabcom.ubi.pt/book/17).

Fotografia de Maria Eduarda Colares

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Biofilmografia

(excerto de artigo «Morreu Manuel Guimarães» in Diário de Lisboa, 30-1-1975, assinado por Lauro António)


Transcrição:

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Manuel Guimarães, sonhador indómito

Museu do Neo-Realismo recebe exposição sobre Manuel Guimarães



in Boletim Municipal de Vila Franca de Xira, nº5, Maio-Junho 2015
http://issuu.com/cmvfx/docs/bm5_maijun

domingo, 10 de maio de 2015

Biografia


Manuel Guimarães, nascido em Albergaria-a-Velha em 1915, cresceu no Porto onde seus pais tinham uma pensão (Pensão do Bolhão, depois a Pensão Aliados). Estudou pintura na Escola de Belas-Artes do Porto, tendo como mestre Dordio Gomes e como colega Júlio Resende, entre outros. Desde cedo fez ilustração para a revista Repórter X e para o Jornal de Notícias, tendo realizado várias exposições de artes plásticas na sua juventude. 

Estreou-se no cinema como assistente geral de Manoel de Oliveira em Aniki-Bobó (1942). Em 1949 realizou a curta-metragem O Desterrado, premiada pelo SNI. Em 1951 concretizou o filme de fundo Saltimbancos, primeira obra neo-realista do cinema português, a que se seguiram mais sete longas-metragens e uma vintena de documentários. A censura salazarista estropiou alguns dos seus filmes, sobretudo Nazaré (1952), Vidas sem Rumo (1956) e O Trigo e o Joio (1965), deixando marcas severas numa obra que a crítica não soube valorizar. 

Guimarães morreu em 1975, sem conseguir concluir a montagem do seu último filme, Cântico Final (a partir do romance homónimo de Vergílio Ferreira) e a sua obra caiu no esquecimento. Foi o único realizador neo-realista do cinema português, o único que ofereceu resistência ideológica ao regime, quiçá o mais sacrificado de todos.

A vida e a obra do cineasta Manuel Guimarães foram marcadas pela penúria, pelos sacrifícios inúmeros, pela resistência ao regime totalitário. Mas a obra é feita de permanente sonho e lirismo, de emoções trabalhadas em busca da perfeição impossível – sempre negada pelos cortes da censura. Desse confronto doloroso da arte com a violência do regime, nasce uma obra de tonalidades quase tristes, mas sempre combativa, que neste ano do centenário queremos dar a ver e reviver.